
Olá transeuntes virtuais, este simpático senhor é o avô da minha namorada ou em japonês, seu Ditchan. Apesar da idade avançada, 94 anos, é a simpatia em pessoa, mesmo quando munido de fôlego, solta palavras que ressoam com força própria dos samurais nos filmes de Kurosawa. Uma vez traduziram esse meu comentário tiéte e ele riu muito, talvez por compará-lo com um samurai.
Eu, assim como ele, entendo 99% do que ele fala, fragmentos captados ali e acolá, palavras soltas, colhidas em dicionários com o intuíto de ser cordial, mas principalmente de existir de alguma forma para eles, ou nã0 é estranho ser apresentado a alguém por terceiros e quando esse alguém tenta socializar no recurso da fala, você ouve apenas um BLABLA indecifrável?
Na maioria das vezes acho engraçado, nas outras fico inquieto, respondo de acordo com o gesto comporal do outro. Como se tratam de idosos japoneses, não se tem um leque muito vasto de expressões corporais, mesmo assim, minha namorada Lucy comentou que era engraçado que enquanto sua vó me pedia um A eu respondia um B, mas acabava fazendo o que ela queria; sinal de que linguagem do contexto funciona bem, só ficar atento.
Outra coisa fascinante é o respeito pelos idosos, no caso particular do avós, dos Ditchans e das Batchans, na minha família não há essa cultura. Por parte de meu pai nunca tive avós, já pela parte de minha mãe, nascida no ceará com mais uma duzia de irmãos, a cultura até que existia, mas definitivamente não se parecia com o conto de fadas hollywodiano, que por muito tempo desejei, se tratava, já na minha infância, de idosos donos de uma vida e severa e trabalhada em demasia (não que justifique, mas explica), nunca os vi de forma afetiva ou carinhosa. Um ideal me impediu de gostar deles como eram.
Meu vô se foi quando eu ainda era muito novo, mas lembro que ele me chamava de bolinha, coitado nã0 tinha noção do quão curta era vara com que ele cutucava o cabeça quadrada aqui. Hoje lembro com graça, na verdade caio na gargalhada, de como ficava infezado.
Minha vó está viva, um tanto quanto esclerosada devido a idade avançada, parecida com a do Ditchan. São muitos os causos que mostram que essa mulher era brava que só vendo, seu nome, Francisca Cosmo das Chagas, já denota um pouco sobre sua personalidade. Lembro que eu, na puberdade, aficionado por cavaleiros dos zodíacos, pensava na cama em segredo, "será que legalmente posso trocar meu sobrenome 'Adriano', com cara de nome composto, por 'COSMO'?" - haha, "Leandro Cosmo!".
Minha vó tem mais um probleminha agravado pela senilidade, é claro, que é a eliminação de suas secreções (tantos as de sua expectoração como as de sua digestão) em locais não muito habituais, como nos almoços em família. Exemplo, nesse último natal, que pela primeira vez teve a presença de minha namorada, confesso ter ficado apreensivo, pois já havia presenciado cenas bem nojentas, mas foi tudo tranquilo. Todos levaram com naturalidade, acho que ficamos mais tolerantes e levamos mais na esportiva, mas meu estômogo ainda se revira, mesmo hoje achando minha vó uma velhinha bonitinha, expectorando no mundinho dela.
Já Batchan e Ditchan também não tiveram vida fácil, por isso decidi retratar o patriarca da familia Misawa, não apenas porque gosto de sua simpatia, mas porque o admiro. Afinal não deve ter sido facil viver na guerra em um país tão pequeno, quem dirá ter lutado nela e ver tantos amigos morrerem. Nessa época, acredito eu, uma pessoa não tinha vontade própria, pouco importavam os ideais, só ligavam para a vitória, custe o que custasse, talvez por isso Ditchan voltou poucas vezes ao "Nihon" (seu país de origem).
Com certeza suas lembranças em solo brasileiro são mais agradáveis. Lembro de ter ouvido, certa vez, alguém ter me falado que o ditchan acha onde eles moram o melhor lugar do mundo, naquele exato momento, por motivos mesquinhos, eu pensava o contrário. Foi forte ter ouvido aquilo, me deixou com um nó na garganta na época e agora.
O melhor lugar do mundo é onde a paz está em equilíbrio com o que precisamos!